|
Introdução
Este sítio
apresenta informações sobre o patrimônio arquitetural
do Rio Grande do Norte que são parte do conhecimento produzido
na Base de Pesquisa em Morfologia e Usos da Arquitetura - MUsA/UFRN
– por equipe coordenada pela profª. Edja Trigueiro.
Edifícios
enfocados neste e em outros inventários compõem bancos
de dados que vêm sendo montados a partir de atividades de
ensino, pesquisa e extensão, e "traduzidos" para
a dinâmica da rede mundial de computadores, para que se tornem
acessíveis a estudantes, pesquisadores e interessados na
formação e transformação do ambiente
construído. O livre acesso a essas informações
possibilita, ainda, a construção de outras fontes
de divulgação de conhecimento sobre o assunto.
Tem-se aqui
um inventário extensivo de edifícios construídos
do século XVIII a meados do século 20 no Seridó
que ainda sobreviviam nos últimos anos do século passado.
Constitui, portanto, um panorama do patrimônio arquitetural
existente no Seridó ao apagar das luzes do século
20.
O inventário
foi motivado pela constatação, nos anos 90, de que
muitos edifícios que se mantiveram total ou quase totalmente
íntegros por um ou mais séculos foram desaparecendo
em um ritmo mais e mais acelerado, sobretudo a partir dos anos 80.
Muitos de nós nascidos nos anos 50 mostramos aos nossos filhos,
nos anos 70, cenários vivos da nossa infância que já
não estavam mais ali na década seguinte.
A percepção
de que não iríamos legar aos nossos netos a herança
recebida de avós e bisavós, levou ao sentimento de
uma quase obrigação de registrar essa herança
em extinção, e assim contribuir para preservar, ainda
que em termos apenas iconográficos, artefatos resultantes
de séculos de aprimoramento construtivo e adaptação
exemplar ao meio natural, que vêm sendo mutilados e substituídos
por construções quase sempre inadequadas ao semi-árido
muitas vezes de baixa qualidade construtiva e estética.
Daí que,
nos últimos anos do século passado, entre 1996 e 2000
professores e alunos do curso de arquitetura da UFRN, conforme suas
disponibilidades de tempo e recursos, palmilharam os centros antigos
de cidades do Seridó, mapeando, fotografando e cadastrando
edifícios que conservavam, no todo ou parte, elementos originais.
A documentação resultante foi depois organizada em
um banco de dados no qual se articulam imagem, informações
sobre localização, aspectos formais exteriores dominantes
e predominância estilística dos elementos remanescentes.
Embora ainda em construção, esse banco de dados vem
sendo regularmente visitado na rede mundial de computadores e tem
servido de referência sobre estudos diversos acerca do ambiente
construído do Rio Grande do Norte.
Sobre o inventário
A documentação
referente ao município de Caicó foi construída
entre 1996 e 1998; em 1998 foram também documentados outros
municípios da área então referida como Zona
Homogênea de Caicó – Serra Negra do Norte, Jardim do
Seridó, Jardim de Piranhas, São Fernando, Timbaúba
dos Batistas, São João do Sabugi, Ipueira, Cruzeta,
Santana do Seridó, São José do Seridó
e Ouro Branco; em 1999, foi registrado o patrimônio remanescente
nos municípios da chamada Zona Homogênea de Currais
Novos – Currais Novos, Acari, Carnaúba dos Dantas, Parelhas
e Equador; e, em 2000, os da Zona Homogênea das Serras Centrais
– Jucurutu, Florânea, São Vicente, Lagoa Nova e Cerro
Corá.
A intenção
de construir um panorama extensivo do patrimônio arquitetônico
sobrevivente ao final do século 20 no Seridó obrigou
a execução de levantamentos apressados e, portanto,
vulneráveis a falhas. Somam-se à pressa, a escassez
de recursos materiais e técnicos - fotografias em ângulos
ou condições de luminosidade inadequadas, mapas-base
incorretos. Embora se tenha buscado corrigir falhas depois identificadas
em gabinete, sabe-se que muitas ainda persistem. Resulta, portanto,
um inventário cujo mérito é fundamentalmente
o de reconhecimento de um patrimônio em extinção
em um momento que se acredita crucial para a visualização
desse quadro.
Considerações
sobre o ambiente (des)construído do Seridó
Na esteira do
desmonte da economia de base agropecuária e da tendência
à transformação das cidades da região
em centros de atividades terciárias substitui-se o uso residencial
pelo comercial/de serviços em edifícios situados nos
núcleos originais de ocupação. A despeito da
crescente presença do discurso sobre conservação
do patrimônio na mídia e nos meios técnico-acadêmicos,
na grande maioria das cidades brasileiras, a integridade e a "antiguidade"
arquitetural não se traduz em valor imobiliário, como
ocorre nos países desenvolvidos. Entende-se, por exemplo,
ser absolutamente necessário acrescentar certos elementos
padronizados segundo o modismo da ocasião para transformar
o uso de um edifício, sobretudo de residencial para comercial.
É este o principal fator de desintegração do
ambiente construído das nossas cidades.
Seguem-se: o
desejo de atualização estilística e funcional
dos habitantes, desde a adoção do revestimento que
"está se usando" até a reforma total da
fachada para atender a requisitos da vida contemporânea, como,
por exemplo, a construção de abrigo para veículos;
a recente preferência pela moradia em apartamento; a formação
de novos bairros, com conseqüente desvalorização
dos antigos como área residencial.
Esses e outros
fatores menos recorrentes estão na raiz das transformações
que têm feito sumir do cenário, vestígios de
séculos de ocupação territorial e de práticas
sociais materializadas nos espaços da cidade e dos edifícios.
Tal processo parece especialmente perverso no Seridó porque
ali se concentra grande parte dos núcleos de ocupação
mais antigos do Rio Grande do Norte e pelo caráter de foco
disseminador de usos e costumes que tem a região.
Considerações
sobre a classificação do patrimônio inventariado
Além
de conferir identidade e legibilidade à cidade, porque a
representam e funcionam como marcos de orientação,
os edifícios de épocas sucessivas são capítulos
de sua trajetória, contando, como o enredo de uma novela,
sua formação e transformação. Daí
a necessidade de classificá-los por período, tarefa
difícil desde que, como artefatos em processo contínuo
de uso, os edifícios se vão modificando e apresentando
vestígios de épocas sucessivas.
No
mapeamento deste inventário optou-se por enquadrar cada edifício
em um dos três períodos sucessivos da arquitetura brasileira
– colonial, eclético e modernista –
de acordo com suas características formais exteriores. Quando
os edifícios apresentam traços claramente perceptíveis
de períodos diversos (a partir da rua) é registrado
o período mais antigo nos mapas. As fichas de identificação
registram a combinação de até dois períodos
(mesmo que haja vestígios dos três), consideradas as
características predominantes. É necessário
enfatizar que são consideradas as características
formais expressas na(s) fachada(s) exposta(s) à rua. Será,
por exemplo, considerado eclético o edifício que reunir
um conjunto de características formais exteriores desse período
mesmo que pareçam (por sua inserção num conjunto
mais antigo, por exemplo) resultantes da reforma de um edifício
colonial. Tal critério além de permitir levar em conta
o processo de transformação do cenário, reduz
equívocos decorrentes da ausência de informações
sobre os casos considerados individualmente, informações
impossíveis de reunir em um inventário extensivo de
reconhecimento.
As
fichas de identificação de cada exemplar descrevem
as características formais que fundamentaram a identificação
dos períodos, organizadas em categorias principais – relação
com o lote e caixa mural – e sub-categorias – volumetria,
cobertura e fachada – conforme esquema abaixo:
|
Relação
com o lote - o modo como o edifício se situa
no terreno, podendo ser SEM RECUO, com RECUO FRONTAL, com
RECUO LATERAL ou BI-LATERAL, FRONTAL-LATERAL, FRONTAL BILATERAL
ou ainda, em PÁTIO (disposto em "L" ou "U",
em torno de um espaço livre)
|
|
Caixa-mural
– a massa construída que contém o edifício
.
Volumetria
– a composição da caixa mural que pode ser SIMPLES
(quando o edifício está inteiramente ou quase
inteiramente contido em um só volume ou COMPOSTA quando
contido em mais de um volume; neste caso os volumes podem
se relacionar por AJUNTAMENTO (apenas encostados uns aos outros),
por INTERPENETRAÇÃO (encaixados uns nos outros),
por JUSTAPOSIÇÃO (uns sobre os outros) ou, ainda,
de mais de uma dessas maneiras.
Cobertura
- Águas
- cada um dos planos (geralmente telhados) que
cobrem os volumes; nesse inventário foram registrados
apenas os mais visíveis a partir do exterior (no
volume principal em exemplares de volumetria composta) porque
são elementos muito importantes para a definição
dos períodos; entre os casos registrados predominam
UMA ÁGUA, DUAS ÁGUAS e QUATRO ÁGUAS.
- Empenas
- cada um dos elementos inclinados (parede, tesoura)
que suporta a cobertura (da cumeeira ao beiral) e que podem
ser LATERAIS, FRONTAIS e posteriores, estar ENCOBERTAS por
platibanda (parede sobre a fachada) de modo que não
ficam visíveis a partir da rua, ou, ainda, INVERTIDAS
(a chamada "borboleta").
Fachada
- Modenatura:
são as molduras que definem as fachadas dos edifícios;
neste inventário foram registradas apenas as relações
entre massa construída e vazios da fachada principal
do volume com maior destaque no conjunto (em casos de volumetria
composta); os CHEIOS podem ser maiores (>) que os VAZIOS,
vice-versa (<), ou, ainda equilibrados (=).
- Vãos
– portas e janelas.
- Disposição
– a distância entre os vãos, podendo ser
REGULAR (quando portas e janelas guardam distâncias
semelhantes entre si ou IRREGULAR (distâncias diversas);
pode existir ainda um ÚNICO vão.
- Relação
– como os vãos se relacionam entre si quanto a
forma, podendo ser SEMELHANTES, DISTINTOS ou, claro, ÚNICO.
- Verga
– o acabamento superior de portas e janelas que se apóia
nos suportes laterais (ombreiras); pode ser RETA, em ARCO
ABATIDO (segmento de círculo), em ARCO PLENO (semi-círculo),
em ARCO OGIVAL (pontudo), RECORTADA (em contornos angulosos
ou sinuosos) ou MISTAS (quando mais de um formato são
encontrados na fachada principal.
|
|
Período
– definido em função do predomínio
de certas características formais comuns a uma mesma
época, podendo ser COLONIAL, ECLETISMO, MODERNISMO
ou ainda COLONIAL + ECLETISMO, COLONIAL + MODERNISMO e ECLETISMO
+ MODERNISMO, quando se manifestam características
de até dois períodos simultaneamente e de modo
mais ou menos equilibrado.
|
Define-se
aqui como arquitetura COLONIAL, os edifícios que apresentam
predominância de características formais legadas
de tempos coloniais mesmo quando sabidamente construídos
em épocas posteriores a 1822. São, no Seridó,
casas construídas ao longo do século 19, sobretudo
no último quartel do século mas também nas
primeiras décadas do século 20, até mais ou
menos 1920, fato que demonstra uma excepcional resistência,
na região, de um tipo formal que já se havia alterado
na maioria das cidades brasileiras mas que, talvez por se mostrar
extremamente adequado às condições ambientais
e tectônicas locais, adquire status de arquitetura vernácula
– própria do lugar. São as casas dos avós e
bisavós das gerações que estão hoje
pelos 50 ou pelos 25, respectivamente. Suas características
exteriores dominantes são:
- construção
alinhada sobre a testada do lote; a relação
do edifício com o lote é, portanto, quase
sempre SEM RECUO ou, às vezes, com RECUO LATERAL ou BILATERAL;
- caixa
mural inteiriça (volumetria SIMPLES);
- cobertura
com 2 ÁGUAS paralelas à fachada principal, em telhas
cerâmicas de "capa e canal", as chamadas telhas
coloniais, usadas até hoje, sendo que maiores e mais espessas,
seus beirais avançando sobre a fachada, apoiados em cornija;
EMPENAS LATERAIS que se aproximam dos 45° e paredes muito espessas
(+ ou - 0,50m);
- nas
fachadas principais, CHEIOS predominam sobre VAZIOS com
vãos SEMELHANTES e dispostos a intervalos REGULARES,
sendo uma ou duas portas nas extremidades da fachada
- se
uma só porta, uma ou mais janelas são dispostas
em um dos lados da porta, se duas portas, podem existir ou não
existir janela(s) entre elas;
- vergas
RETAS ou em ARCO ABATIDO; molduras de pedra ou reboco acompanham,
geralmente, o contorno do vão;
- superfícies
da fachada entre os vãos, rebocadas e caiadas, sem adornos
de qualquer espécie;
- predominância
de simetria, linhas e planos horizontais.
A
pequena casa de esquina, não mais existente, a chamada "casa
de pedra" e a antiga Casa de Câmara e Cadeia ou "cadeia
velha", atual Museu do Seridó, em Caicó são
exemplos de arquitetura civil colonial.
As
construções religiosas desse período têm
características próprias embora várias coincidam
com as da arquitetura civil.
Define-se
aqui como ECLETISMO um conjunto de tendências formais combinadas
que surgem na Europa em fins do século XVIII, através
das linguagens clássicas da Grécia e Roma, enriquece-se
com revivalismos medievais e depois românicos, renascentistas,
barrocos e de várias outras tendências estilísticas,
espalhando-se pelo mundo ao longo do século XIX. Chega ao
Brasil, no início do século XIX, com a transferência
da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, é adotado (primeiro
em construções de elite, depois generalizadamente)
nos principais centros urbanos brasileiros – Recife, Salvador, Belém
– a partir de meados do século XIX e dissemina-se pelo país
no início do século XX, predominando nas construções
do Seridó, entre os anos 20 e 40. Na fase de disseminação
por todo o Brasil, o ecletismo combina influências formais
revivalistas correntes na Europa do século XIX com manifestações
de vanguarda, que apontam para o século XX (Art Nouveau e
Art-Deco), e ainda, com tentativas de recriação de
uma linguagem estilística nacional de inspiração
neo-colonial.
Suas
características exteriores mais freqüentes são:
- construção
recuada em relação à testada do lote,
os recuos podendo ser FRONTAL-LATERAL, FRONTAL-BILATERAL ou, menos
frequentemente apenas FRONTAL
- caixa
mural apresenta volumetria SIMPLES ou COMPOSTA por
AJUNTAMENTO, INTERPENETRAÇÃO e/ou JUSTAPOSIÇÃO;
- coberturas,
em DUAS, QUATRO ÁGUAS, recobertas de telhas cerâmicas
planas, as chamadas "telhas francesas" ou de "capa
e canal"; com empenas FRONTAIS, LATERAIS ou ENCOBERTAS
por platibandas; destacam-se, elementos decorativos nas platibandas
que são freqüentemente recortadas em linhas sinuosas
e, mais tardiamente, em recortes escalonados;
- na
modenatura das fachadas predominam CHEIOS sobre VAZIOS,
embora a presença de elementos decorativos, geralmente
adornos em massa ou estuque, contribua para disfarçar a
continuidade dos cheios;
- vãos
SEMELHANTES ou DISTINTOS, dispostos a intervalos regulares ou
irregulares nas fachadas;
- vergas
RETAS, em ARCO PLENO, em ARCO OGIVAL, RECORTADAS, MISTAS; molduras
em reboco acompanhando o contorno do vão ou a eles acrescentando
elementos decorativos no topo e laterais;
- superfícies
da fachada entre os vãos, preenchidas com adornos segundo
a(s) inspiração(ções) estilística(s)
adotada(s);
- predominância
de assimetria (exceto nos casos de forte influência neo-clacissista)
e de linhas e planos verticais.
É
o período que apresenta, conforme a própria designação,
maior variedade formal, indo desde uma fachadas cuja modenatura
se assemelha a das casas coloniais, exceto pela presença
mais abundante de ornamentos, até uma composição
que aponta para a linguagem formal proto-modernista com motivos
decorativos geométricos, superfícies desnudas, marquises
em cimento armado. Em um primeiro momento – finais do século
19 e início do 20, no Seridó predomina um ecletismo
de inspiração classicista caracterizado pela presença
de: cornijas (elementos horizontais salientes, originalmente com
a função de pingueiras) decorativas nas platibandas
(retas ou triangulares) e molduras dos vãos; platibandas
em forma de frontão (tringulares) e vãos em arco pleno.
As casas abaixo ilustram essa tendência.
Define-se
aqui como MODERNISMO edifícios em que predominam formas próprias
ou derivadas do inicialmente chamado "Estilo Internacional"
que depois se define mundialmente como arquitetura moderna. Essa
linguagem estilística surge na Europa nos anos 20, chega
ao Brasil nos anos 30, encontra grande receptividade por parte das
elites culturais e políticas, então buscando afirmação
nacional e internacional, através de expressões capazes
de aliar contemporaneidade e nacionalismo, alcança visibilidade
no exterior a partir dos anos 40, disseminando-se nos centros urbanos
brasileiros nos anos 50 e ganhando ainda mais vigor nos anos 60,
impulsionada pela repercussão de Brasília.
Suas
características exteriores mais freqüentes são:
- edifício
recuado em relação à testada e freqüentemente
aos limites laterais do lote, demarcados por elementos
que não obstruem ou obstruem apenas minimamente sua visibilidade
a partir da rua;
- caixa
mural formada por volumes SIMPLES ou mais comumente
COMPOSTOS, JUNTOS, INTERPENETRANTES, JUSTAPOSTOS, cobertos
por número variado de ÁGUAS (inclusive UMA ÁGUA),
freqüentemente ENCOBERTAS por platibandas RETAS às
vezes conformando empenas INVERTIDAS; os telhados podem ser de
telhas de "capa e canal" sobre madeirame ou sobrepostas
diretamente às lajes, o que permite declives mais suaves
ou, ainda, de cimento amianto com mínima angulação;
ocorrem, embora raras, coberturas em lajes planas;
- nas
fachadas predominam os VAZIOS sobre os CHEIOS;
- os
vãos tendem a ser mais largos que altos, SEMELHANTES
ou DISTINTOS, dispostos a intervalos IRREGULARES e freqüentemente
ocupando a maior parte das fachadas; as vergas são quase
sempre RETAS sobre janelas predominantemente longitudinais; vazios
são, ainda, freqüentemente fechados por elementos
vazados (cobogós e brise-soleils);
- as
superfícies dos cheios podem ser rebocadas e pintadas ou
revestidas por cerâmica, azulejo e pedra, com destaque para
as chamadas "pedras de parelhas";
- predominância
de assimetria, de prismas horizontais e de planos e linhas horizontais
e diagonais.
A
categoria aqui definida abriga desde versões cujas relações
com o lote e composição volumétrica se assemelha
a das casas coloniais e ecléticas, exceto pela ausência
ou comedimento ornamental, até composições
fiéis à linguagem formal modernista característica
do mundo ocidental, inclusive na adoção de algumas
inovações técnico-construtivas.
A
seqüência abaixo ilustra essa escala e reforça
a constatação, repetidamente presente na literatura,
de que, no Brasil, a aceitação do modernismo arquitetural
atravessa todas as regiões e patamares sócio-econômicos.
Na
casa de porta e janela, em Caicó, o modernismo manifesta-se
apenas na redução da decoração a duas
linhas que demarcam a empena frontal única e o topo dos vãos
e reduzem a verticalidade decorrente da estreiteza da fachada; em
Timbaúba, na fachada menos estreita, a horizontalidade característica
do modernismo é ainda enfatizada pelo vazio do terraço;
note-se aí o artifício do desencontro das empenas
frontais que simulam movimentação volumétrica,
além de acentuar a presença de linhas diagonais; em
Serra Negra a simulação é mais eficaz pela
presença da moldura vertical que reparte a fachada; surgem
também adornos típicos do modernismo nacional e regional,
como os pequenos círculos na platibanda, as listras horizontais
em relevo de um lado e outro da janela, as pedras de revestimento.
Note-se nas casas em Equador (branca) e Jucurutu (rosa) a recorrência
das linhas diagonais e a presença das empenas frontais invertidas
(borboleta);
 |
 |
O
jogo volumétrico apenas simulado nos exemplos anteriores
se realiza nas casas em Carnaúba dos Dantas e Cerro Corá.
Além dos vazios (terraços) longitudinais, das empenas
desencontradas, das listras horizontais em relevo, da ênfase
na assimetria, na horizontalidade e nas linhas horizontais e diagonais,
essas casas apresentam também elementos vazados (cobogós),
inovação construtiva crescentemente adotada nas construções
modernistas. Note-se a laje plana sem telhado sobre o terraço
da casa em Cerro Corá.
Nas
casas em Jardim do Seridó e Lagoa Nova, além dos recuos
em relação à testada do lote, das lajes planas
dos terraços, dos volumes que se movimentam com mais vigor,
as platibandas retas acentuam ainda mais a horizontalidade; no exemplar
em Jardim do Seridó as finas colunas em "V"que
suportam o pequeno terraço são outra inovação
construtiva tipicamente modernista.
Nos
exemplares seguintes (Caicó, Jardim do Seridó e Acari)
aparecem os pilotis (pilastras que suportam os volumes superiores)
e as molduras salientes (Acari) que enquadram o volume superior.
Essa
componente formal é enfatizada na casa revestida de pedras
em Caicó, cidade que abriga também o exemplar mais
fiel à linguagem modernista internacional encontrado neste
inventário por reunir o maior e mais completo conjunto de
características definidoras do estilo.
As
características formais aqui apresentadas para definir as
categorias COLONIAL, ECLETISMO e MODERNISMO são aquelas mais
recorrentes em cada período e devem servir de guia para sua
identificação. Semelhante função têm
os edifícios que ilustram o texto, pinçados do conjunto
inventariado por exemplificarem com razoável clareza, variantes
de cada período encontradas na região.
Contudo,
na realidade dos ambientes construídos, as construções
nem sempre se definem estilisticamente com essa clareza. Como artefatos
de uso prolongado, os edifícios são produto de constantes
transformações físicas, bem como de combinações
entre tendências arcaicas e inovadoras adotadas simultaneamente,
de sorte que a classificação de amostras extensivas
implica em uma margem considerável de subjetividade, sobretudo
quanto ao estabelecimento da linha demarcadora entre os limites
de cada tendência ou período estilístico.
A
despeito dessas dificuldades, neste inventário, optou-se
por definir três outras categorias, ou tipos formais híbridos,
que embora longe de esgotar as possibilidades combinatórias
possíveis e, de fato encontradas no Seridó, justificam-se
pela freqüência em que se manifestam na região.
São elas: COLONIAL + ECLETISMO, ECLETISMO + MODERNISMO e
COLONIAL + MODERNISMO.
Define-se
aqui como COLONIAL+ECLETISMO, um conjunto vasto de edifícios
que, reunindo características formais legadas de tempos coloniais,
receberam atualizações estilísticas posteriores,
através da incorporação de elementos formais
ecléticos ou que, construídos no início do
século 20, conservaram aspectos formais arcaizantes combinados
e já em desuso, a aspectos então contemporâneos.
Tais edifícios constituem a grande maioria do patrimônio
sobrevivente construído até as primeiras décadas
do 20, fato que confirma o caráter vernáculo que assumiu
a arquitetura do século 19 – perfeitamente adequada aos recursos
naturais e materiais da região – no Seridó.
Nas
casas de Acari e Jardim de Piranhas (laranja), platibandas menos
e mais recentes foram acrescentadas a construções
com implantação no lote, caixa mural e modenatura
de tempos coloniais
Na
igreja de Acari, combinam-se elementos herdados do barroco a arcos
plenos mais característicos do ecletismo neo-clássico.

Nestas
casas em São Vicente, Serra Negra e São João,
cornijas também neo-clássicas emolduram além
das platibandas, as vergas dos vãos.
Nos
casos apresentados abaixo, em Ouro Branco , São Jose e Jucurutu,
a composição da fachada, a ausência dos telhados
com inclinação acentuada e a presença de uma
carga ornamental bastante variada torna mais incerta a suposição
sobre se esses casos resultam de atualizações estilísticas
ou de concepções arcaizantes em que são combinados
aspectos de períodos anteriores, já entrando em desuso,
com elementos contemporâneos.
Define-se aqui
como ECLETISMO+MODERNISMO, edifícios que, reunindo características
formais comuns nos anos 20 e 30, receberam atualizações
estilísticas posteriores, através da incorporação
de elementos formais modernistas ou que, construídos nos
anos 40 e 50, conservaram aspectos formais já em crescente
desuso, enquanto outros, contemporâneos à época,
foram adotados.
Nas
casas de Caicó, São José do Seridó e
Jucurutu e Lagoa Nova, empenas frontais semelhantes as dos chalés
ecléticos ganham aspectos distintos daqueles, simplificadas-se
em um friso que apenas delineia seu contorno (Caicó), modeladas
para simular desnível de águas (São José
do Seridó e Jucurutu), revestidas por platibanda que acentua
a horizontalidade da composição (Lagoa Nova). Nesta,
adornos também comumente freqüentes nos chalés
ecléticos, em forma de frontão vazado ao meio por
um círculo já não acompanha a inclinação
das empenas nem emoldura um óculo central como costumava
acontecer naquelas construções mas convive com os
frisos em relevo e as janelas horizontais típicas da linguagem
modernista. Na casa de São José do Seridó as
ombreiras da janela são enviesadas o que acentua as linhas
diagonais também demarcadas pelos adornos sobre os cheios
da fachada. Frisos transversais conferem horizontalidade às
casas de Caicó e Jucurutu.
|
 |
|
 |
Em Acari, a
platibanda escalonada e a janela de proporção ligeiramente
vertical, recorrente no ecletismo tardio, contracenam com o arranjo
formal do terraço que inclui finíssimos suportes cilíndricos
(canos) quase imperceptíveis que sustentam prateleiras cuja
composição define, ao mesmo tempo, linhas horizontais
e diagonais; panos de cobogós completam o efeito modernista
da fachada. Jucurutu O exemplar de Carnaúba dos Dantas também
apresenta marquise, cobogós, janela de proporção
ligeiramente horizontal e forte destaque para as linhas diagonais,
nas empenas e águas desencontradas e laterais do vazio do
terraço.
No exemplar
de Jardim de Piranhas, adornos e recortes que evocam o Ecletismo
e o Art Deco convivem com uma composição que embora
simétrica é fortemente marcada por linhas horizontais,
apresentando, inclusive, sobre a porta e emoldurando as janelas
marcadamente longitudinais, marquises em cimento armado, inovação
tecnológica comum nos anos 40 e 50. Na casa de dois pavimentos
em Caicó, um elenco de detalhes associados à linguagem
modernista – assimetria, "pedras de parelhas", finos suportes
cilíndricos, pequenos círculos decorativos, rasgo
transpondo os dois pisos – combinam-se com vãos predominantemente
verticais e platibanda recortada à moda do ecletismo tardio.
|
 |
Há, finalmente,
e não são poucas, construções aqui classificadas
como pertencentes à tendência COLONIAL+MODERNISMO que
aliam características formais comuns à arquitetura
vernácula, legada de tempos coloniais, a aspectos modernistas,
seja porque receberam atualizações estilísticas
posteriores, seja porque condicionaram-se ao peso da tradição
vernácula, conservando sua essência.
Nas
casa de porta e janela de Cerro Corá sobreviveram a cornija
que um dia pode ter servido de apoio ao beiral que se combina com
a janela longitudinal, enquanto nas de Caico, restaram as proporções
quanto as dimensões dos vãos e, ainda, suas cercaduras
enquanto a moldura foi refeita acentuando a figura geométrica
tendente ao quadrada, invocação, talvez da influência
cubista no modernismo arquitetônico inicial. Nas casas de
Ouro Branco e Carnaúba dos Dantas note-se a forte predominância
das linhas e proporções horizontais. Na de Caicó,
acrescenta-se, inclusive a moldura com perfil diagonal e o revestimento
de cerâmica ao enquadramento horizontal dos vãos.
|
 |
 |
|
 |
Há ainda,
no inventário, uma série de casos não classificados,
identificados pela abreviatura N/C. Optou-se por sua manutenção
porque, uma vez identificados no reconhecimento de campo como portadores
de vestígios pré-modernistas ou modernistas, acreditou-se
ser importante registrar sua existência. Contudo não
se encontrou, mesmo dentro da margem de subjetividade consentida
no julgamento das tendências do conjunto inventariado, argumentos
capazes de suportar qualquer classificação, seja pelo
grau de descaracterização que sofreram, seja pela
má qualidade dos registros fotográficos que serviram
para dirimir, em gabinete, classificações aparentemente
equivocadas por parte dos vários colaboradores, alguns ainda
muito iniciantes na prática de inventários extensivos.
Resta, portanto, aos interessados que se dispuserem a percorrer
esse banco de dados, contribuir para clarificar essas lacunas se
por ventura os edifícios sobreviverem por mais algum tempo,
contribuição que será, certamente, muito valiosa.
Este trabalho
é dedicado aos moradores do Seridó.
|